Archive for abril, 2008

Peregrinos de guarda-chuva

abril 29, 2008

Saímos do Porto de ônibus, ainda debaixo de chuva. Quatro horas de viagem por uma estrada inacreditavelmente perfeita até Santiago de Compostela.

Nao tenho vergonha de dizer que passei a me interessar por Santiago de Compostela depois que li o livro do Paulo Coelho. Já tinha ouvido falar da famosa catedral, em referências remotas dos bancos escolares, ou por carona nas conversas de minha mae e minhas tias, tendo por base os textos dos inúmeros cursos de história da arte que frequentaram.

Mas foi o livro do Paulo Coelho que me desvendou os caminhos de Santiago e as histórias dos peregrinos que percorrem a Europa para chegar à catedral. É claro que poderia ter fontes melhores, mas nao me envergonho. Da mesma forma, quase tudo o que sei sobre o Tibet veio da leitura de Lobsang Rampa, aquele da terceira visao, que contou ao Ocidente o que aconteceu no país quando foi invadido pela China, em meados do século passado.

Quando li o Diário de um Mago, creio que há mais de 15 anos, imaginei a cidade de Santiago de Compostela como uma espécie de feira medieval, repleta de monges e peregrinos vestidos com mantos escuros, com seus cajados de madeira, alforges e conchas penduradas.

Nao tem nada disso. Os peregrinos de hoje usam roupas e mochilas de nylon colorido, impermeável. Calçam botas de plástico e carregam barracas de camping e varas de alumínio, ao invés do tradicional cajado de madeira.

Chegam a Santiago em pequenos grupos e vao se encontrando na praça, se abraçam entrando na igreja e comentam a própria incredulidade: “I don´t believe we made it!”, “puxa vida, conseguimos”, “aqui estamos, finalmente”.

A igreja é mesmo linda. Minha pobre câmera nao consegue captar toda a beleza da pedra envelhecida. Muito menos a atmosfera que cerca a praça e se espalha pela cidade.

Todos os dias, às onze da manha, os sinos dobram e convocam a populaçao para a missa dos peregrinos. A igreja fica cheia. Todo mundo se acomoda em silêncio, ou se cala para ouvir a voz maravilhosa da freirinha que, sozinha, consegue encher a catedral. Antes do início da missa, ela intercala o canto com o anúncio dos grupos de peregrinos que chegam de diferentes países, pelas diversas rotas. É lindo de fazer chorar.

Embora nao sejamos religiosos, ficamos extremamente emocionados. Consegui gravar um pedacinho, que prometo publicar aqui quando voltar pra casa. Ainda nao encontramos locais de acesso público à internet que nos permitam inserir vídeos.

Agora sim, o vídeo.

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Espanha afora

abril 28, 2008

Tem sido difícil encontrar bons cyber cafés em terras espanholas. A maioria nao permite a entrada de câmaras fotográficas ou qualquer outro device para publicar fotos.

Mas nao desistam. Em breve, contarei tudo sobre Santiago de Compostela, o interior da Galícia, as praias das rias baixas e altas e a passagem para o Principado de Astúrias. Hoje estamos em Oviedo, a capital do principado. Uma cidade chiquérrima, com 200 mil habitantes. 

É incrível como muda tudo, da língua às comidas. Até parecem países diferentes. E muita gente acha que sao mesmo.

Beijos a todos e até o próximo cyber café, ou hotel com acesso mais liberal à Internet. Por hoje, vamos para a rua comer uma Fabada Asturiana, com a sidra da terra.

Ainda O Porto

abril 25, 2008

Antes mesmo de desembarcar nas “terras cerventinas”, como lembra meu amigo Veras, lemos um artigo na revista da TAP que informava ser época de lampréias na regiao do rio Douro. Uma das razoes de nossa escolha de Portugal e Espanha para estas férias foi experimentar os mais diferentes e famosos peixes e mariscos do mundo. Nos empanturrarmos de tudo o que os mares frios têm a oferecer.

Mas eu tenho que confessar que nunca tinha ouvido falar em lampréias. E também nao sabia que elas  sao do mar…

A curiosidade gastronômica do Frederico nao poderia deixar passar em branco essa iguaria nunca dantes experimentada. E nao dava para esperar nem um dia.

Passamos a percorrer as ruas do Porto, embaixo de chuva, à cata de lampréias.

Nossos estômagos ainda conversavam com o pequeno almoço, com quatro horas de fuso horário à frente, mas a cada tasquinha das calçadas, parávamos nas vitrinas, a olhar os cardápios, para conferir se havia ou nao lampréias.

Finalmente, ao pé do largo do Carmo, encontramos o cartaz na vidraça do Restaurante Romao: HÁ LAMPRÉIA. 

Perguntamos como eram servidas as lampréias e se as porçoes seriam grandes ou deveríamos pedir uma para cada um de nós.

O senhor Romao disse que serviam-se somente duas postitas. Assim sendo, pedimos duas, com arroz branco e o vinho nacional mesmo, porque nao viemos à Península Ibérica beber vinho importado.

A aparência das bichas nao poderia ser mais estranha. Mesmo já preparadas, servidas com o carinho das tasquinhas portuguesas, as tais lampréias mais pareciam pedaços de cobra, em molho escuro, com cara de sangue.

O senhor Romao nos informou que eram preparadas com vinho tinto. Imaginei que, como os polvos e as lulas, as tais lampréias pudessem ter um pouco de tinta, para espantar os inimigos. Também pensei que, como as enguias, pudessem ter aquela aparência de cobra, mas uma carne branca e macia. Tudo isso antes de experimentar a bicha.

Nao sou muito boa em descrever sabores. Costumo, por exemplo, comparar os vinhos frutados a suco de uva, para horror dos entendidos. Tudo o que posso dizer é que a tal lampréia tem gosto de terra e sangue, temperada com louro e uma pitada de pimenta.

Comi uma posta. O Fred comeu duas, para honrar a experiência.

Hoje descobri que as lampréias sao verdadeiros fósseis vivos. Comi um bicho que habita o planeta há 420 milhoes de anos. Deve ser por isso que nao gostei. Deviam estar meio passadas.

Pelas terras de Europa

abril 22, 2008

A Europa nos recebeu com chuva. Muiiiita chuva. Tanta chuva que fomos obrigados a fazer a primeira parada numa lojinha de chineses, ao lado do hotel da cidade do Porto, para comprar guarda-chuvas, daqueles que valem cinco dinheiros, nao importa qual seja a moeda. No Brasil sao cinco Reais, na Europa, cinco Euros, nos Estados Unidos, cinco Dólares… A diferença é a qualidade. Os guarda-chuvas chineses vendidos em Portugal sao lindos e têm o dobro de varetas. Devem, também, durar o dobro do que duram os vendidos no Brasil, que nao resistem a um pé de vento.

Jamais pensei que algum dia escreveria sobre guarda-chuvas. Mas, como diz Rosa Monteiro, a “louca da casa” nos leva por paragens jamais imaginadas.

Fora a chuva, a cidade do Porto nos surpreendeu imensamente. Muito limpa e bem cuidada, nao parece a mesma cidade em que estive duas vezes, no final dos anos 80 e, mais tarde, no início dos 90.

Na primeira vez, chegamos de carro e me lembro de uma cena pitoresca que presenciei em uma das ladeiras próximas ao rio. Uma velha senhora vestida de negro e carregando pesadas cestas atravessava a rua, enquanto um motorista buzinava. Ela parou bem no meio da rua, largou as sacolas e disse um desaforo impublicável ao motorista do carro. Nos rimos muito.

Em minha segunda viagem ao Porto estava a trabalho. Reportei para a TSF a incrível festa de Sao Joao, que acontece na noite anterior ao solstício, marcando o início do verao europeu. Todas as pessoas vao para as ruas da cidade do Porto, munidas de martelinhos de plástico para festejar o Santo e a nova estaçao com vinho verde recém engarrafado, sardinhas e pimentos assados na brasa. Naquela época, as famílias chegavam do interior em suas “carrinhas” e tomavam as ruas e as praças, até assistir ao nascer do Sol e do verao, na praia da foz do rio.

Desta vez, a surpresa foi encontrar uma cidade moderna, muito arborizada e cheia de turistas. Mas a comida continua muito boa e os portugueses acolhedores e simpáticos.

Partimos para Santiago de Compostela. Assim que puder, conto mais um pouco e, se possível, posto umas fotos. Me arrependi de nao trazer meu computador. Nao é muito fácil encontrar um computador com entrada USB que se possa usar. Tem internet em qualquer lugar, mas todos usam seus notebooks. E desculpem a falta de til. Eles só existem sobre a letra N nos teclados da Espanha.