O mar Cantábrico

maio 2, 2008
Em todas as minhas viagens tenho me dedicado a caminhar as cidades. Gosto de percorrer tudo o que posso a pé. Tomar um transporte público, ir para o centro ou qualquer outro bairro e andar, andar. Quando der fome, escolher um restaurante simpático e acessível, comer e voltar a andar. Minhas memórias das cidades têm, portanto, essa característica. São andarilhas. São, também, coisas que gosto de fazer, lugares que me encantam. Passeios que recomendaria às pessoas de quem gosto.
Hoje estamos na linda cidade de Santander, a capital do “estado” espanhol da Cantábria. Nos últimos dez dias, caminhamos várias cidades, vilas e aldeias bem miúdas, no litoral ou no interior da Galícia, do Principado de Astúrias e, desde ontem, na Cantábria. Estivemos nos chamados Picos da Europa, onde descobri porque a tal da “gripe espanhola” fez tantas vítimas mundo afora. Ela me pegou em cheio e me jogou na cama. Fiquei com uma dor de ouvido de matar e ainda estou tentando me curar da tosse e da sinusite. Seria o mesmo vírus de 1918? Se nao, deve ser uma mutacao muito parecida…
Mas meu assunto hoje é o mar. Esta manha, caminhamos pela orla da baía de Santander. Olhando o mar, me dei conta de que há quase duas semanas, percorro a orla de várias cidades à beira mar e, em nenhuma delas, encontrei sequer um pedacinho de papel jogado dentro d´água. Nem uma garrafa pet. Nem um saco plástico. Nem uma lata de cerveja.
Nao importa o tamanho da cidade. Cudillero, nas Astúrias, deve ter uns 500 habitantes. Nóia, na Galícia, pode chegar aos 20 mil. La Coruña tem quase 300 mil. Santander, outros tantos.
Todo mundo nessas cidades caminha pela orla marítima. Todo mundo vai à praia, pega onda, acompanha a chegada dos barcos, brinca com os pássaros à beira mar. Depois vai aos restaurantes e come peixes e mariscos. Tudo muito parecido com o que acontece em Cumuruxatiba, Baía Formosa, Angra dos Reis, Búzios, Salvador ou Rio de Janeiro.
Mas aqui, todo mundo também cuida de preservar o mar. A água é transparente. Se vê o fundo e os peixes, que nadam em volta dos barquinhos, como se fossem animais de estimacao.
Em muitas cidades, inclusive aqui em Santander, vimos dezenas de pessoas com varas de pesca no porto, passando o tempo, tentando fisgar alguma coisa. Em Muros, chegamos a presenciar a sorte de um pescador que apanhou dois grandes calamares e garantiu o almoco da família.
Fiquei pensando em nosso pobre Brasil. Em nossa paupérrima cidade do Rio de Janeiro, com milhoes de habitantes que usam a Baia de Guanabara como latrina. Em nossos surfistas e banhistas mergulhados em coliformes fecais e no perigo de consumir peixes e mariscos do Atlântico Sul.
Há mais de 15 anos fiz uma matéria sobre o programa de despoluicao da baía de Guanabara, que recebia vultosos investimentos do Japao, com direito a transferência de tecnologia, etc e tal. Até hoje, nao vi avancos, nao tenho notícia dos resultados, nao tenho conhecimento nem mesmo da conclusao da usina de tratamento de esgotos da Alegria, que previa reduzir os dejetos lancados na baia in natura.
O Governador do Estado do Rio de Janeiro, que vive passeando pelo mundo, devia ter vergonha. Devia, pelo menos, evitar de ir ao banheiro todos os dias na cidade onde mora.
Para afastar a tristeza e melhorar o humor, comemos uma bela paella no bairro dos pescadores de Santander, acompanhada do maravilhoso vinho Albariño.
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2 Respostas to “O mar Cantábrico”

  1. Marcus Veras Says:

    Muito boa a reflexão. Tirei um pedaço dela e vou editar no Confissões de Um Amador. Enquanto tratarmos a nossa baía de Guanabara como latrina, seremos uma cidade condenada à extinção. bjs. Marcus

  2. Vanessa Oliveira Says:

    Adorei seu texto, que para mim foi muito construtivo. Ler esse texto me fez pensar de como o homem pode preservar o seu habitat com boas ações, o problema é que não só, nossos governantes como também os populares já acham que tudo no Brasil é normal, então daí vem o descaso das pessoas. Hummm paella adorooooooo, lembro-me bem do dia em que experimentei pela primeira vez achei o sabor maravilhoso e não vejo a hora de repetir a dose e esse vinho desse ser bom mesmo você já o citou por duas vezes, fiquei com vontade.

    Vejo que você está curtindo muito e isso é o mais importante. Seja feliz e muita PAZ.

    Abraços.


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