Archive for julho, 2009

Cacimbo

julho 22, 2009

Luanda é bege nesta época do ano.  As pessoas parecem estar envoltas por uma bruma, como se estivessem presas dentro de uma nuvem, ou semi-escondidas por uma cortina de poeira.

Angola 003

No primeiro dia de minha estada, olhei para o céu e pensei que ia chover. O ar estava pesado. O céu carregado. Calor. Sufoco.

De maio a agosto é assim. Tudo meio desfocado. Os angolanos dão o nome de Cacimbo a esta bruma. O mesmo nome que usam para designar a  estação, considerada “seca”, somente por oposição à estação das chuvas, que vai de setembro a abril.

No período do Cacimbo tudo é úmido e pegajoso. Mas realmente não chove. 

A atmosfera fica bege. Da mesma cor da poeira que cobre as estradas, as calçadas, os carros, as pessoas.  Uma fumaça constante que rouba o brilho das fotografias.  

Luanda 018

Mesmo no bairro nobre do Alvalade, onde se percebe um esforço de arborização, mal se distinguem os contornos das casas e dos edifícios.

A névoa embaça o horizonte, a paisagem, o humor e ofusca a vida nesta cidade.

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Outras versões

julho 14, 2009

Um amigo da Televisão Pública de Angola, a TPA, jura que os coqueiros da Marginal parecem estar secos porque estão em fase de adaptação ao novo terreno. Segundo ele, as palmeiras foram todas plantadas fora de Luanda, num lugar mais úmido. Ao serem transplantadas, perderam suas folhas e ficaram somente com os troncos até a readaptação. Portanto, diz, é só esperar que eles vão voltar a brotar. Pode ser. Teremos que esperar pra ver. Mas se algum biólogo angolano estiver entre os meus milhares de leitores, adoraria uma explicação verdadeiramente científica.

Outro tema de meu post anterior tem uma versão diferente: a guerra teria, sim, chegado a Luanda.

Uma amiga professora, moradora do bairro do Alvalade – um dos melhores da cidade – conta que os homens do Savimbi atacaram várias residências em Luanda, inclusive a dela, que quase foi atingida por um tiro de obuz . Por sorte, naquele dia, ela, marido e filhos, tinham se escondido no porão, tão logo começaram as explosões.

Angola já se recupera de todas essa tragédias. Se o país está em reconstrução, Luanda é um imenso canteiro de obras, que tem arranha-céus despontando a cada esquina.

Vai ficar bonito. Mas é bom que os planejadores cuidem de abrir avenidas e espalhar melhor o centro da cidade.

Angola 030

Se a capital de Angola continuar crescendo só para cima, daqui a pouco tempo, ninguém mais conseguirá se mover nos já quilométricos engarrafamentos.

Luanda dos coqueiros sem copa

julho 7, 2009

Sempre pensei em Luanda como uma Copacabana mais antiga. Amigos portugueses me diziam que a Marginal – como eles chamam a avenida beira mar – com seus coqueiros e a vista da baía lembra a “princezinha do mar”, só que sem as areias onde as cariocas desfilam seus biquínis para deleite dos turistas de todo o mundo.

Luanda não lembra Copacabana.

Para começar, os coqueiros não tem copa. São troncos mutilados, como soldados sem cabeça, que dão ao passante a impressão de imensos palitos espetados na calçada.

Luanda 112

Há controvérsias sobre o que aconteceu aos coqueiros de Luanda. Uma das versões dá conta de que as folhas teriam sido cortadas para possibilitar uma melhor visão da praia por  frentes de batalha opostas.  Estranho, já que a guerra civil que assolou o país por 27 anos depois da independência de Portugal (1975/2002) não teria chegado a Luanda.

Há quem diga que foi uma praga que devorou ou fez apodrecer as copas dos coqueiros. Outros preferem afirmar que foram mesmo cortados, porque a Marginal vai passar por um processo de reurbanização que vai ampliar toda a avenida e criar novos jardins, pistas para bicicletas etc e tal.

Mesmo considerando mais plausível a versão da praga, a visão dos coqueiros sem copa é muito incômoda, especialmente no final da tarde, quando todos aqueles troncos teimam em aparecer nas fotografias para atrapalhar o belíssimo visual do pôr do Sol.

E todos os dias ele se põe avermelhado e magnífico, sobre o que os angolanos chamam a “praia”, mas que na verdade é uma península, do outro lado da baía.

por do Sol na praia