Archive for maio, 2008

Livros e mais livros

maio 21, 2008

Os livros de que mais gosto estão em branco. São aquelas cadernetas Molesquine de capa preta e elástico, que segundo a propaganda, eram usados por Hemingway, Picasso e alguns outros ícones da literatura ou do desenho mundial. Mas não é só por causa dos Molesquines e outros cadernos ou livros em branco que entro nas livrarias. Quando posso, entro em todas as que vejo. Gosto de olhar o que está em destaque, como as obras são organizadas, quais áreas atraem mais gente. Dou uma espiada nas novidades sobre comunicação e televisão e nos best-sellers que já lí ou que ainda quero ler. Gosto, especialmente, de conhecer as velhas livrarias. Aquelas que são tradição de seu ramo de negócio.

Algumas, como a Livraria Bertrand, de Lisboa, atendem ao público há mais de dois séculos. A loja ao lado, embora com a logomarca modernizada, funciona desde 1732. Ali, no mesmo local, ao pé do largo do Chiado, quase em frente à Cafetaria A Brasileira, por onde circulava Fernando Pessoa. Hoje não circula mais, mas continua lá, imortalizado em bronze.

Outras, fizeram questão de permanecer intactas. Manter tudo como sempre foi e fazer de conta que o tempo não passou, que não mudaram os fregueses e suas necessidades, que ainda se lê como antigamente. Que os livros são a fonte mais importante.

Nessas livrarias, o estoque de livros é apenas um dos itens a levar em consideração. É o passado que funciona como cartão de visitas. O mobiliário, a disposição das estantes, o inusitado da arrumação das obras atraem os visitantes, mesmo que não sejam compradores de livros.

Nesta viagem conheci pelo menos duas livrarias impressionantes.

A primeira, no Porto, lembrou o “cemitério dos livros esquecidos” descrito por Carlos Ruiz Zafón no livro “A Sombra do Vento”. Emocionante homenagem ao poder dos livros. A história se passa na Barcelona franquista, do início do século XX, quando um menino é levado pelo pai a uma biblioteca secreta e labiríntica que funciona como depósito para obras abandonadas pelo mundo. Esquecidas pelos leitores.

A Livraria Lello, se fosse um pouco maior e secreta, seria o próprio cemitério dos livros esquecidos. Confiram nas fotos abaixo.

Só a escada mereceria uma tese de doutorado. Aliás, um ensaio fotográfico sobre a própria casa – com sua inacreditável escada de madeira e piso vermelho – é a obra mais vendida pela livraria Lello. Foi editado em todos os idiomas europeus e custa 20 Euros. Quase 60 Reais.

A outra livraria inusitada que conhecemos é a Livraria Esperança, em Funchal, na Madeira. Único lugar no mundo onde vi os livros expostos um a um. Por todos os lados. Em todas as paredes. Em cada uma das estantes.

O slogan da Livraria Esperança anunciava: uma das maiores livrarias do mundo. Entre e confira. Entramos somente na área de livros infanto-juvenis.

E ficamos boquiabertos.

Está aí o registro do espanto do Fred, para que eu não minta sozinha.

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Madeira

maio 19, 2008

Um pequeno arquipélago de rocha vulcânica no meio do Atlântico Norte. Uma ilha chamada Madeira. Este post contém algumas fotos para vocês terem uma idéia do paraíso onde nos encontramos.

No dia 17 de maio, a Madeira comemorou 500 anos da promoção de sua capital, Funchal, à categoria de cidade.

Linda cidade. Maravilhosa ilha.

 É pura cor, cheiro, sabor.

Estávamos lá e vimos tudo. Os fogos, a festa, a alegria e o som do fado.

 Funchal talvez seja a cidade mais florida que já tenha visto na vida. Vibrante, colorida. Orgulhosa de seu Jardim Botânico, onde se chega de teleférico. Das flores vendidas junto às verduras no mercado do produtor rural. 

Saborosa cidade com seus “bolos do caco”. Ninguém imagina como esse pãozinho pode ser bom. Parece um simples pão de hamburguer, desses industrializados. Mas a massa é uma delícia e o bichinho é servido quentinho, com manteiga e alho.

Chama-se bolo do caco porque antigamente era assado num caco de telha. A tradição se mantém e todos os restaurantes oferecem o bolo do caco. Engordei mais uns três quilos graças a esses inofensivos pãezinhos.

Outra iguaria da Madeira é um marisco chamado lapa. Não é um bivalve, como as ostras, os mexilhões e as vieiras. Ele fica agarrado nas pedras e, de acordo com os profundos conhecimentos do Fred sobre as coisas do mar, deve dar um trabalho danado pra tirar. São servidos assados, com alho e cheiro verde, e podem ser bem acompanhados pelo delicioso vinho da Madeira.

Fizemos uma viagem de ônibus para a pequena aldeia de Ribeira Brava. Viagem não. Foi uma aventura de dar arrepios, como os melhores trillers. As estradas da ilha são construídas nas encostas, assim como as casas, as lavouras, os jardins. Tudo está colocado morro acima. Os ônibus circulam em grande velocidade por aquelas estradinhas fininhas e a gente vê o mar lá embaixo… quase nenhuma encosta, nada nos separa do vazio. E os motoristas não reduzem a velocidade não. Metem a mão na buzina e quem vier em sentido contrário que trate de parar. Pura emoção.

Acaba que o teleférico é mesmo o melhor meio de transporte por aqui.

 

Daqui seguimos para Lisboa. Última etapa de nossa viagem. Estamos muito contentes por ter um teclado em português e por estar num hotel onde podemos publicar fotos. 

Finalmente Barcelona

maio 12, 2008

Infelizmente, estamos chegando ao final de nossa incrível viagem pela Espanha.

Chegamos a Barcelona no domingo e encontramos a Rambla repleta de turistas. Tenho a sensaçao de que circulam mais turistas pela Rambla em um único dia do que durante todo um mês pelas ruas do Rio de Janeiro. É um formigueiro incrível. Mas mais incrível ainda é o que as pessoas fazem para ganhar a vida por aqui. Tem gente fantasiada de tudo e de qualquer coisa. Vampiros, fadas, príncipes, índios, flores, frutos, robô feito de garrafas pet, enfim, a criatividade é ilimitada.

Ao sair de Andorra, subimos os Pirineus Catalaes, a uma temperatura amena, de mais ou menos três graus. Ficamos o tempo de um delicioso almoço, a 1.800 metros de altitude, no Paso de La Collada de Toses. Comemos um bacalao muito interessante. Aliás, nos intriga como o bacalhau por aqui é macio. Todos dizem que é o mesmo bacalhau que conhecemos, dessalado. Vou comprar um livro de receitas para aprender como se faz, porque é uma delícia.

Chovia muito na descida dos Pirineus. Parece que é a primeira grande chuva na Catalunha nos últimos dois anos. Chegamos a ver reportagens na TV sobre a seca e a sujeira das ruas de Barcelona, por falta de chuva.

Como nao tínhamos hotel em Barcelona, passamos dois dias na cidade de Girona. Uma cidadezinha medieval, 100 quilômetros ao Norte de Barcelona. Foi uma linda experiência. A cidade estava toda decorada com flores, numa iniciativa dos comerciantes locais com a Prefeitura. Havia mais de 50 monumentos e residências particulares do “casco viello” decoradas com arranjos florais, nos mais variados estilos. Fiz muitas fotos, que publicarei quando puder.

Hoje é feriado em Barcelona. A cidade continua cheia e movimentada. Fomos à igreja da Sagrada Família e subimos ao Mont Juic, de teleférico. Uma loucura aquela igreja em obras. Alguns amigos já tinham comentado como é impressionante que ela esteja sendo construída e visitada ao mesmo tempo. Mas eu nao imaginava aquilo tudo. Acho que ainda vai demorar uns 50 anos para ficar pronta. Será que isso acontece em meu tempo de vida? Tomara. É muito emocionante.

Aliás, pensando na velhice e no tempo de vida, acabo de cruzar com um turista na Rambla com um enorme cartaz, em três línguas, dizendo: a velhice é uma merda. E todo mundo ainda acha que somos inúteis. Não posso deixar de pensar que a outra opção é muito pior.

Passeamos também pela Rambla de Mar. Mais uma vez, a água limpa e cristalina nos chama a atenção. O aproveitamento do porto e a preparação do espaço para uso do público nos fez, mais uma vez, pensar na triste Praça XV e no lixo que bóia na baía de Guanabara.

Vejam só a cara do Fred sonhando, diante daquele mar limpo, cheio de robalos, chernes, bacalhaus, sardinhas, linguados, calamares, lulas, polvos, camarões, vieiras…

Ligeira mudança de rota

maio 8, 2008

Pegamos um vento de popa em San Sebastián, aliás, Donostia, que nos levou direto pra cima dos Pirineus e viemos parar no paraíso da bagulhada, a cidade de Andorra la Vella, no Principado de Andorra.

Nunca vi um lugar mais kitch. Acho que nem o Paraguai consegue ter tantas lojas e tantas marcas. Originais ou genéricas, nao importa muito. Também nao importa qual é a língua que você fala. Fala-se de tudo por aqui. E há portugueses em todos os cantos, especialmente em restaurantes e hotéis. O que importa é quanto você está disposto a gastar. De minha parte, muito pouco…

Pra refrescar os olhos dos letreiros super iluminados desse templo de consumo mundial, peguei meia hora de Internet no hotel. Nao vai dar para contar em detalhes tudo o que vem acontecendo nos últimos dias, nem postar fotos. Aqui também nao se permite.

Mas posso adiantar que os Pirineus sao incríveis e que os vinhos Somontanos, do reinado de Aragón sao quase tao bons quanto os Albariños da Galícia. Especialmente quando acompanhados de um guisado de javali ao molho civet. Pensei que só comeria javali se fosse assado, como nas histórias do Asterix. Descobri que eles fazem mais sucesso na panela do que na parrilha.

O mar Cantábrico

maio 2, 2008
Em todas as minhas viagens tenho me dedicado a caminhar as cidades. Gosto de percorrer tudo o que posso a pé. Tomar um transporte público, ir para o centro ou qualquer outro bairro e andar, andar. Quando der fome, escolher um restaurante simpático e acessível, comer e voltar a andar. Minhas memórias das cidades têm, portanto, essa característica. São andarilhas. São, também, coisas que gosto de fazer, lugares que me encantam. Passeios que recomendaria às pessoas de quem gosto.
Hoje estamos na linda cidade de Santander, a capital do “estado” espanhol da Cantábria. Nos últimos dez dias, caminhamos várias cidades, vilas e aldeias bem miúdas, no litoral ou no interior da Galícia, do Principado de Astúrias e, desde ontem, na Cantábria. Estivemos nos chamados Picos da Europa, onde descobri porque a tal da “gripe espanhola” fez tantas vítimas mundo afora. Ela me pegou em cheio e me jogou na cama. Fiquei com uma dor de ouvido de matar e ainda estou tentando me curar da tosse e da sinusite. Seria o mesmo vírus de 1918? Se nao, deve ser uma mutacao muito parecida…
Mas meu assunto hoje é o mar. Esta manha, caminhamos pela orla da baía de Santander. Olhando o mar, me dei conta de que há quase duas semanas, percorro a orla de várias cidades à beira mar e, em nenhuma delas, encontrei sequer um pedacinho de papel jogado dentro d´água. Nem uma garrafa pet. Nem um saco plástico. Nem uma lata de cerveja.
Nao importa o tamanho da cidade. Cudillero, nas Astúrias, deve ter uns 500 habitantes. Nóia, na Galícia, pode chegar aos 20 mil. La Coruña tem quase 300 mil. Santander, outros tantos.
Todo mundo nessas cidades caminha pela orla marítima. Todo mundo vai à praia, pega onda, acompanha a chegada dos barcos, brinca com os pássaros à beira mar. Depois vai aos restaurantes e come peixes e mariscos. Tudo muito parecido com o que acontece em Cumuruxatiba, Baía Formosa, Angra dos Reis, Búzios, Salvador ou Rio de Janeiro.
Mas aqui, todo mundo também cuida de preservar o mar. A água é transparente. Se vê o fundo e os peixes, que nadam em volta dos barquinhos, como se fossem animais de estimacao.
Em muitas cidades, inclusive aqui em Santander, vimos dezenas de pessoas com varas de pesca no porto, passando o tempo, tentando fisgar alguma coisa. Em Muros, chegamos a presenciar a sorte de um pescador que apanhou dois grandes calamares e garantiu o almoco da família.
Fiquei pensando em nosso pobre Brasil. Em nossa paupérrima cidade do Rio de Janeiro, com milhoes de habitantes que usam a Baia de Guanabara como latrina. Em nossos surfistas e banhistas mergulhados em coliformes fecais e no perigo de consumir peixes e mariscos do Atlântico Sul.
Há mais de 15 anos fiz uma matéria sobre o programa de despoluicao da baía de Guanabara, que recebia vultosos investimentos do Japao, com direito a transferência de tecnologia, etc e tal. Até hoje, nao vi avancos, nao tenho notícia dos resultados, nao tenho conhecimento nem mesmo da conclusao da usina de tratamento de esgotos da Alegria, que previa reduzir os dejetos lancados na baia in natura.
O Governador do Estado do Rio de Janeiro, que vive passeando pelo mundo, devia ter vergonha. Devia, pelo menos, evitar de ir ao banheiro todos os dias na cidade onde mora.
Para afastar a tristeza e melhorar o humor, comemos uma bela paella no bairro dos pescadores de Santander, acompanhada do maravilhoso vinho Albariño.